Herói americano

I

América, hoje eu acordo como sempre faço,

O sol da América ilumina o mundo de hoje.

Mas hoje faz frio. Calor não persiste,

Não vence a densa neblina que tampa o azul do céu.

América, me foda. Como sempre fez com todos

Todos eles que aqui morreram, todos que aqui vivem,

América, o que você não pode mais fazer?

O jornal que embrulha o peixe, a tenda de salgados,

O vendedor ambulante de picolé, os mendigos,

A autoridade que não existe, o homem de negócios

Invisível; América, o que há de novo no horizonte?

Dizem que pra cima, no norte, você é o centro do universo,

Mas não é, então, o que é? América, o que você é, mesmo?

A paixão é sofrimento; uma dor lacerante.

Sobre o que não veio, sobre o que não virou verdade.

Somos imigrantes nos seus seios, América, habitantes

De tua buceta; ingerimos álcool e dançamos a noite inteira,

Fingimos alegrias, vamos para academia, achamos que

Mudamos o mundo a não escolher uma barra específica

De chocolate; mentimos de todos os jeitos nas redes sociais.

No fim das contas, América, é tudo que importa para você.

Fazemos o seu dinheiro e brincamos de identidade,

Achamos likes melhores que a satisfação de um sexo

Vertiginoso com quem se ama, América, é tudo que importa

Para você. E esse poema desproporcional, torto, não

Formatado é de um preguiça leitora esvoaçante,

América, agora eu quero te foder…


II

Eu era menino no teu ventre, dormindo sob as estrelas

Não temia nada, pois contigo estava seguro.


Eu era menino no teu ventre, dormindo sob a lua

E os monstros moravam lá longe onde a noite começa.


Eu era menino e tive de sair de casa, sob a chuva

E de repente, não sabia mais quem eu era.


Eu era menino e me ensinaram que dinheiro importa

E quando dei por mim, minha alma era um contracheque.


Eu era menino e chorei a noite com medo da morte,

Mas a morte não vinha quando se não tinha a coragem.


Eu era menino e a solidão fez casa em mim

E eu a abracei, pois tudo que eu tinha era ela e ela a mim.


Eu era menino, não me encaixava no mundo

E o mundo era um vasto problema de cor azul esverdeado.


Eu era menino e morava no teu ventre,

Oh, mãe terra, só você mesma, além de tudo, que me ama.


Eu era menino.


III

O jantar foi servido no começo da noite.

E eles estavam de terno e gravata.

Todos eles me esperavam na porta.

Eu era o prato principal da noite.


Fui vorazmente devorado por eles.

Mas não sentia nada abaixo do pescoço.

Meu corpo era um espaço aberto.

Enquanto eu era devorado por eles.


Depois eles ejacularam nas paredes.

E me encheram de promessas vãs.

Eu não tinha nada, eu não via nada

Eles pararam de ejacular nas paredes.


Depois me mandaram para casa.

O escritório era como me prometeram.

Eu tinha uma secretária linda e competente.

Trabalhava de dia, a noite ia para casa.


Um dia eu morri no meio da noite.

Fizeram um post de preto bonito.

Uma flor branca virou meu símbolo.

Chamaram o próximo no meio da noite.


IV

Vocês acreditam em tudo, não é?

Ideologia é a roupa que se veste hoje.

Eu cresci no tempo de eles contra nós.

E hoje tenho de decidir entre eles e nós?

Vocês acreditam em tudo, não é?

Enquanto o papel te comandar tudo bem,

Você nasceu da vontade e do medo,

E agora vive sem vontade e sem medo.

Normalidade é o ópio do povo,

E eu sou louco, me dizem, meus remédios

Eu preciso de terapia, preciso me desligar.

Mas como isso ocorre, não é?

As ruas de manhã, na segunda, tomadas por moribundos,

Todos os sonhos transformados em remelas do olho.

O café apressado, a necessidade de se chegar na hora,

Queridos, você não pode ser radical,

Rede social é um prostíbulo de ideias:

Escolha uma e foda a noite inteira!

É isso que você queria, América, é isso?

Eu morro em silêncio, fico calado.

Não sou nada além do que eu era.

Eu virei meu inimigo.

E estou sozinho.

América, obrigado.

O mundo é isso mesmo. Não precisa de mim.

Eu, herói. O verso, a clava.

Esporro golpes no vazio e nas sombras.

Eu faço gestos que não entendo. Eu sou louco, sabia?

Preciso de remédios e preciso de terapia.

Falsos diagnósticos, vaidade doentia.

Quem sofre é quem silencia. América, era isso

O que você queria?


V

Não, o mundo não pode ser isso.

Tenho tantos sonhos para realizar;

A vida é maior e mais vasta

Do que me dizem no algoritmo.


E logo agora, a vida pode começar.

E tudo isso passar repentinamente,

Talvez um sonho, seja tudo isso.

Eu quero acreditar que tudo é bom.


As pessoas são até verdadeiras,

Só precisam saber disso.

Mas as aparências enganam, não é?

E eu quero acreditar na bondade.


Eu olho nos olhos dela e pego

Na sua mão e digo que vai ser assim.

Vai ser tudo legal, quando nos vermos

Para o fim de semana.


Até lá, eu olho os números.

Até lá, me embriago de satisfações alheias.

Mas o dia pode nascer lindo.

Eu quero acordar e já são 6:30.


Logo agora, as coisas podem recomeçar.

E a esperança se tornar maior que o medo.

Não preciso que me digam onde ir,

Meus pés são o caminho. Eu sigo, eu vou.

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