I
São 4:30 da manhã.
Pachamama me acorde do sonho
que devo lutar.
Potosí me aguarda nas conduções
que pegarei no rumo sul
para alimentar os filhos da puta
que são donos de todos nós.
– de todos nós.
Eles são sedentos por nosso sangue,
pela nossa cor, pelos nossos sonhos;
Potosí me aguarda nas paradas
para o café; digo bom dia ao seu João
e ele me sorri seu sorriso sonolento
e me diz para ir com Deus na guia
e Deus, agarrado às minhas mãos
feito criança, me mostra o caminho.
O sol ainda não se levantou,
Grande Mãe, me leva no teu braço,
com Deus Menino de dedos entrelaçados
aos meus, olhando o mundo,
duvidando de tudo.
Somos eu e Ele, somos
nós pelo caminho cinzento
no rumo de Potosí para alimentar
os sedentos filhos da puta
que nunca se saciam de nossas
vidas servidas a exaustão em
baixelas de prata.
II
Quando criança, com a justiça sonhei
E ela me falou que era para todos nós.
A justiça era muda e precisava de voz
E pela justiça, fui aos cantos, eu gritei.
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Quando criança, também eu era utopia
E a utopia falou que não era de ninguém
Pois ser utópico era ser sempre além
De tudo aquilo antes que eu já cria.
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Eu virei homem feito e hoje eu chorei
Por que utopia e justiça são pra não mais.
E utopia e justiça é tudo para eu ser paz
Sem elas, então, o que eu amanhã serei?
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(comece pelo hoje a revolta
que trará iminente o nosso amanhã…)
III
Eles iludiram a gente, irmão.
Se chamam de liberais, mas não são
liberdade; eles juram que são a democracia
mas cortaram a nossa ilusão cotidiana
de ter força e poder.
Eles se vestem de lei áurea, mas
seguram o porrete e nos silenciam
no canto escuro da favela.
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Eles mentiram tanto para nós,
eles mentiram na voz de Cortez,
eles mentiram na voz de Pizzaro;
a voz do Borba Gato era de mentira,
era a mentira dos engenhos
de cana-de-açúcar, dos senhores
da guerra, violadores de nossos
indígenas – sob o silêncio romântico.
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E agora que faremos?
Irmão, eles nos querem em suas cozinhas
e não nos corredores da academia;
corredores de academia são escuros
e tristes e somos nós que os mantemos
limpo para suas noites de gala;
mas eles só querem para isso; quando,
irmão, quando?
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IV
São 6 da manhã,
Pachamama guia minha bandeira
e o Deus Menino se abraça no meu
pescoço. Potosí em chamas,
com as gorduras dos filhos da puta
se tornando o rio fértil para as flores de
nossa liberdade.
As bandeiras são de todas as cores
do céu, da terra, das praias de areia negra
da república oriental, dos desertos de sal
ajoelhados aos Andes, verdes amazônicos,
azuis de prata;
um arco-íris de molotov corta o sol
e a guilhotina decepa as estátuas
poderes dos violadores assassinos.
O mundo vira e o Sul aponta
eternamente para o futuro.