I
Eu hoje escolhi ser a roupa
da moda; eu escolhi o cabelo dela;
escolhi a barba dele; escolhi
ir a academia de nome tal e
tomar refrigerante sem açúcar.
Hoje eu escolhi evidenciar minhas
alegrias em uma trend sem nexo;
e me envolvi em um novo debate
do qual eu não sei absolutamente nada.
Eu hoje escolhi ler poesia para
parecer culto e beber detergente para
parecer político; eu hoje sou ácido
e tóxico, mas já escolhi ser amado
e compreensivo. Eu hoje dancei sozinho
na sala para vários seguidores e
mostrar a todos que também sei fazer
um pudim caseiro sem ajuda física.
Eu hoje me tranquei no quarto
e chorei copiosamente com todo
o medo que a negação traz embaixo
de seu capote.
II
O meu lucro é o que me devora
nesta hora;
eu sou apenas o lucro de alguém
que me fode pelo horário comercial
e depois vai embora.
O meu sonho é o de liberdade
de verdade;
eu apenas sussurro meu queixar
embaixo dos travesseiros
da minha dignidade.
Hoje eu janto farto e feliz
o que fiz
foi tudo uma encenação domingueira
fantasia de carnaval colorida
de alma gris.
Amanhã eu não sei mais
o gosto mordaz
da fruta proibida de meus desejos
que caiu esquecida da árvore e não
vai voltar atrás.
III
Ó musa capital dos anseios do homem
canta a cólera funesta daquele endividado
que trabalha por si e pelos outros, mas não
sabe que tudo que tem não tocará, pois
o que lhe resta é apenas a ilusão fajuta
de se achar dono de si quando, na verdade
repete, cegamente, os mandamentos
de quem assina as etiquetas de suas camisas
usadas apenas nos fim de semana e lamenta
a vida que tem no gole da cerveja maquinal.
Deita longe o olhar da Moira que não
esquece o quanto aquele homem engarrafou
o caminho de outros para, enfim, ser o ideal
que lhe esperam naquele caixão de concreto
de vinte andares na rua da Bolsa de Valores.
Cai por terra o inimigo e si mesmo e deixa
a batalha antes mesmo de começar a guerra.
Dê por fim, homem, sua vida medíocre e
acolhe para si a sina de ser reposto quando se for
pela última vez, no caminho da calçada.
Morreu, enfim, o homem no dia de trabalho
quando todos estavam ocupados nos seus
cubículos de frente a pequenos quadros gráficos
de números que nunca ninguém entendeu de fato.
Os carros, as motos e os passos não pararam
e o corpo estendido ali começou a florescer
sob o sol de verão, mas ninguém deu o valor
enquanto a escavadeira lançava a última terra
nos peitos sem ar daquele homem sem reflexo
eterno personagem de memes e de injustiças.
IV
Eu acordei abençoado pela visão
de não esquecer de onde eu vim;
eu sou para sempre o mesmo
e a verdade caminha ao meu lado.
Eu sou apenas a ilusão do poeta
o fruto proibido escondido no algoritmo;
a mentira necessária, a verdade absoluta
o sexo em brasa derretendo teu orgasmo.
Eu escrevo a poesia e não minto,
pois o poeta é o que mais vê o mundo;
ao redor dele, só a cegueira e a vaidade
– Me dê sua mão e vamos por ali.
Mas não quero ir por ali, não sou dali;
eu não preciso ir por ali, por que eu vim
foi de onde meu pés pisaram a relva
e dançaram no cadáver do que eu fui.
Não, eu não sou dali; eu sou de outro
lugar, distante; não me obriguem ser dali
se não conheço aquele sol, aquela lua;
eu escolho de onde eu vim;
E por isso que a verdade anda comigo,
não preciso de uma mão amiga
preciso de meus olhos nus e caminho livre
sigo por onde eu cresci; o caminho, eu sou.