A Suindara

Certa noite, foi o crepúsculo embora

Na janela arrulho da rua me invoca.

Toma-me breve o cansaço do dia

acalanta-me a doce saudade e fadiga

de tempos antigos, juventude esparsa

distante época do esquecimento morada

quando o barulho sonolento se faz ouvir

para além da janela fechada e meus vitrais

– que barulho é esse horripilante do meu sentir?

É apenas a noite escura e nada mais…


Lembro-me que de dia era o céu anil,

que virou noite naquele triste abril

com um chuvisco tímido em labaredas gélidas

espantando da rua tanto pessoas e feras,

e eu na mansidão absurda dos meus dias

coletando memórias em lágrimas vívidas

ouço um rasgo sobrenatural revoar e partir

para além dos lampejos de minha consciência mordaz

e cri ingênuo que fora para sempre esse rasgo daqui

– Foi apenas um lapso, e nada mais…


Então, ouvi na penumbra do quarto

Como a visagem de espanto e escárnio

que reintera aos vivos o deleite da morte

e subjuga os incautos de tamanha sorte,

ouvi o rasgo potente na minha solidão

que ecoou a alma congelando-me o coração

E tremendo os lábios tentando algum dizer

– Quem fala comigo sem ter voz loquaz?

E a resposta muda, no espaço, se fez ver

Era a chuvosa noite e nada mais.


Meus olhos se acostumaram com o escuro

fechavam lentos como quem teme o futuro.

E então distante na escuridão pousada potente,

olhava-me profunda na alma diretamente

descansada sobre os livros de minha estante

com sua penungem alva, pura e brilhante

Alguma alma eterna entronizava a vigília

Pensei comigo em meu sono fulgás

– Quem és tu que partilha a solidão de minha vida?

E apenas me olhava fulminante e nada mais.


Acendi mais que rápido a lâmpada

com a mãe ébria de sono e crispada

para melhor aquele vulto alvo vislumbrar

e entender de vez o quanto daquilo era sonhar.

Endireitei-me melhor e me ergui do leito

Trabalhoso e difícil com a fadiga do corpo feito,

pude, enfim, distinguir quem dali observava

meu ressonar absurdo de suores anormais.

Vi um par de olhos amarelos que imperava

para além da escuridão e nada mais.


Visitava-me, pois, a belíssima suindara,

aquela das lendas do vivos e que rasga mortalhas.

Ela veio-me bater a noite como companheira

indesejada, pois, mas silente e matreira.

Mirava-me como quem sabia os meus segredos

e alimentava-se perene dos meus medos.

Encarei-a, pois, inócuo do que poderia falar

enquanto o vento frio vazava pelos meus vitrais.

– O que fazes tu nesta noite insone a me vigiar?

Ridículo era o silêncio dali e nada mais.


Ela, então, dançou para mim,

alcançando-me a curiosidade no fim.

Tentava me observar, eu dizia, afinal,

ou ludibriava-me para algum ataque mortal?

O frio de abril e o chuvisco reinavam

a vastidão da noite subia e aos vivos bastavam. 

– Qual tua missiva, indiferente pássaro mensageiro?

Falei, por fim, direto e mordaz

– O que buscas neste quarto tão torpe e fagueiro?

Restou a escuridão muda e nada mais.


Ela, então, voejou para a ripa

Olhando-me nefasta como que atrevida

Pude eu não mais mensurar o assombro

Quem, pois, vagava ali: anjo ou demônio?

No instante insalubre do meu arrependimento,

pus-me a orar pedindo qualquer discernimento,

mas ela, na penumbra macabra, se pôs a rasgar

Um canto funesto de notas curtas e abismais,

maiores que o meu lacrimal absurdo de rezar

Era um rasgo de desesperança e nunca mais.


Senti meu corpo todo tolhido,

o medo enfim me deteve perdido.

O canto ecoava no quarto dormente

e me senti absorto do mundo e dolente.

A fadiga do corpo era só a solidão,

os suores da noite entorpeciam a visão.

Pedi que visagem terrível dali fosse distante

para qualquer lugar, léguas infinitas ademais,

mas a suindara revoava imperial e constante

respodendo no rasgo o meu pedido: jamais!


No auge do desespero, o sol me nascia

Enfim, dali por certo, brotava mais um dia.

A noturna, de fato, dali foi-se para onde

a noite é integra para muito além do horizonte.

Meus medos e anseios descansam na jornada

enquanto ainda detenho a alma despertada.

Mas a noite era vindoura e certa

e de certeza ela viria com a sorte de coisas irreias.

A suindara retornará, vasta e perpétua

e sobre a solidão evocará: nunca mais!

Deixe um comentário